Boa Tarde Irmãs e Irmãos de Mundo

O texto abaixo pode ser encontrado na sessão Textos do meu site. Ele foi escrito, há um ano atrás, quando a Rúbia terminou comigo depois de 2 semanas de namoro. E é a minha forma de descrever o golpe final que eu recebi para ser o que sou hoje em dia... Espero que apreciem.
A Festa

Não queria acordar. O novo dia apenas lhe traria o Nervosismo. A Ansiedade dormiu ao seu lado, naquela pequena cama. Mante-o preso a parede fria do seu quarto, enquanto o Nervosismo acendia e apreciava um cigarro ao lado da porta.

O Medo tomava conta dele, lhe alimentava a Alma. Mas teve que dar lugar a Esperança, que o empurrava ao ouvir o som daquelas batidas a sua porta. Correu, com a Esperança ao seu lado. Mas está logo parou, e voltou a ler o seu livro, na parte estavam a Desilusão e a Angústia, traziam cervejas. Ali, naquele pequeno quarto haveria uma festa.

Uma festa que ele não desejava, mas não teria outra escolha senão participar. Sentaram no chão frio em roda. Ele, a Angústia, o Nervosismo, a Ansiedade e a Desilusão. Sozinha, e sem outra opção, a Esperança ficou na porta, esperando os demais convidados que estavam a chegar.

Não tardou para que a festa se populasse. Um-a-um os auto-convidados compareceram, religiosamente atendem ao chamado da Angústia. Primeiro foi o Desespero. Esbaforido, suando, entrou como um raio porta a dentro, e foi direto para o banheiro, se molhar um pouco. Minutos depois, arrastando-se e carregando um grande saco negro, adentrou no recinto o Sofrimento. Nesse momento a Esperança se encolheu num canto. Largada e esquecida na porta ela se fechou, saiu, deixando entrar a Melancolia. Com o seu longo vestido preto, e um gaita, sentou em um banco e começou a tocar um
blues bem executado. E na cama subiu a Angústia trazendo o gótico para a festa. E assim seguiu o som noite adentro.

A bebida não acabava, e o cheiro enebriante do néctar supremo atraiu um novo convidado, o Bêbado, que com toda a sua desenvoltura e brincadeiras animou a todos, todos menos Ele. Olhando de seu lugar no chão para todos os lados, procurava em vão a Esperança. Foi então que a Depressão o abraçou, e seu beijo amargo tocou os seus lábios, e suas palavras sinceras chegaram ao seus ouvidos:

- Desista, ela não vem. Fugiu e sequestrou a sua Vida. Não meu caro, Ela nunca mais voltará. Rezigna-te e aproveite a noite comigo."

Olhou em volta até por os olhos de novo na Esperança, e ser capaz de divisar o seu último suspiro. Ela estava estirada no chão, apulhada pelo Medo, que sorria, vitorioso em cima da sua vítima. O sangue vermelho brilhante ainda escorria pela lâmina da adaga, e era tarde demais para fazer alguma coisa. Chorou, acompanhado do Desespero chorou. Adormeceu em meio a tudo e a todos, e por uma última vez sonho. Em seu sonho estava Ela, a Paixão.

A beldade que lhe fora apresentada pela Luxúria. A beldade que aceitara seguindo o conselho do Impulso. A criatura que o completara, que trouxera de volta para a sua vida o Carinho e o Afago. A musa que colocara em seu quarto a Esperança, e que agora, era responsável por sua morte. A jovem que o levou para passear nos Campos Floridos da Alegria. Que o levou em aventuras cada vez mais profundas nas cavernas do Sexo. Que o alimentou em seu divã com o Néctar do Desejo e o Fruto da Carícia.

Foi o último sonho que Ele, o Amor teve. Adormecido e embriagado foi alvo da adaga cruel do Destino, que o observou a noite toda de sua janela.
Campinas 22/10/02
Samuel Sol Villar dos Santos